Ainda sobre o Gondim

Recentemente causou grande comoção no arraial evangélico (permita-me dizer que chamar de evangélico – na acepção da palavra – esse arraial é pecado desmedido) a entrevista do pastor Ricardo Gondim. Ele verbalizou alguns pensamentos e o que mais causou consternação foi a resposta a pergunta: “O senhor é a favor da união civil entre homossexuais?” A resposta do pastor foi curta: “Sou a favor”.
Pronto! O caldo entornou. Isso me lembra a famosa música do Teixeirinha:

“Me perguntaram se eu sou gaúcho
Está na cara, repare o meu jeito
Eu sou gaúcho lá de Passo Fundo
E trato todo mundo, com muito respeito
Mas se alguém me pisar no pala
Meu revólver fala
E o bochincho tá feito”.

Gondim não é gaucho, mas perguntaram e a boca (não o revolver, naturalmente) falou. O bochincho está feito. O tema é nevrálgico. Os religiosos tem um histórico de ódio a todos os homossexuais ainda que digam que amam o pecador e odeiam o pecado. Isso na prática não ocorre. Raras são as comunidades que aceitam alguém em seu meio e que continua praticando a homossexualidade. A igreja aceita quem está praticando o roubo, a opressão, o poder desmedido, a violência, o abuso doméstico. O pastor sabe que na sua igreja tem um empresário que não registra seus funcionários, sabe que tem famílias que pagam uma miséria para a empregada doméstica. Mas esses são pecados tolerados. Pode-se fazer isso e freqüentar a igreja.
Os homossexuais saíram do armário. Se eles saíram do armário eles vão parar em algum lugar. Um provável lugar pode ser a igreja. Pode e eu diria, deve. Deve porque a igreja precisa ter essas pessoas em seu meio. Precisa porque por muitos anos, décadas, séculos a igreja prega que o evangelho é amor, é graça, é perdão, é paz, etc. Ela convida os pecadores para o seu meio. Ela abre as portas para o culto e todos podem entrar. Um famoso hino diz:

“Eu venho como estou!
Eu venho como estou!
Porque Jesus por mim morreu,
Eu venho como estou!”

E ai o sujeito acredita nisso e vem como está. A igreja não está preparada para isso e começa uma cruzada para transformar a pessoa. Se essa transformação ocorrer rapidamente, segue-se o batismo e inclusão na comunidade. Em não havendo a tão esperada transformação segue-se um processo de “fritura”, torcendo para que o infeliz deixe o arraial por conta própria. O erro da igreja é que ela pensa que pode influir na transformação de alguém. A igreja trabalha com o tempo cronológico (já está na igreja há um ano e deveria ter parado de fumar). A igreja deveria trabalhar com o tempo kairológico (Já está na igreja, está muito bom, louvado seja Deus e no devido tempo a graça há de permear a vida dessa pessoa).

Eu creio que a igreja não tem essa capacidade. Dizendo melhor, são poucas as comunidades praticando o kairós de Deus.

Voltando a resposta do Gondim: “Sou a favor”.

Ele, como brasileiro, tem o direito de pensar o que ele quer pensar. A constituição lhe garante esse direito. Agora, se você não concorda com ele, também é direito seu. Você pode pensar diferente, crer diferente e agir diferente. Isso não tem nenhum problema. Você tem apenas que seguir certo protocolo, ou seja, ao discordar do pensamento dele que você não o odeie como pessoa. Que você não o elimine do arraial. Que você não o demonize. Ele é irmão em Cristo. O diálogo no campo das idéias nos faz crescer.

O grande dilema que eu vejo é que o evangélico pensa muito pouco. Ele discorda de algo a partir das suas emoções ou a partir da tradição da sua igreja. Ele mesmo não pesquisa, não estuda, não se informa. Discorda porque tem que discordar. Para piorar a liderança eclesiástica também é falha e ensina pouco para a sua comunidade. Nunca vi um tempo tão raso em relação ao estudo como esse que estamos vivendo. Pastores batem pernas o dia todo e não gastam nem meia hora para preparar o sermão de domingo. O último livro que leu foi no século passado.

Você discorda do Gondim? Apresente suas razões. Mostre seus argumentos. Cite teólogos. Demonstre sua capacidade de articulador bíblico. Se você não quer ou não pode fazer isso, fique quieto.

Outra coisa ainda. Não aceito a censura. Já vencemos essa fase em nossa pátria. O pensador em tela pode falar aquilo que entende como o correto para ele hoje (ele pode pensar diferente amanhã). Ele pensando assim modifica o seu pensamento? Ele atrapalha o seu ministério? Ele confunde as suas ovelhas? Se a resposta é sim, o problema não é dele, mas seu. Essa coisa de dizer que ele está desviando as ovelhas é balela. As únicas ovelhas que o Gondim pode desviar são as dele, se ele desviar as suas é porque você é fraco no ensino. Só isso.

Eu tenho o seguinte lema: “Se alguém me convencer de alguma coisa, eu mereço”. Se eu ouvir uma palestra onde é afirmado que Jesus e Buda são irmãos e eu sair dali e pregar isso, eu mereço. Se meus ouvintes aceitarem, ele merecem.

Outra coisa é a frase: “Fui eleito o herege da vez”. Achei um exagero. Quando a li, pensei. Comparado com quem? Quem foram os hereges de ontem? O nome que veio à mente foi Martinho Lutero. Não creio ser o caso.

Viva a sua vida, viva o seu ministério. Uma coisa o Gondim não o é: covarde. Como vocês sabem os covardes não vão herdar o reino de Deus. Assim sendo, ele estará na eternidade e você caso chegue por lá, terá que conviver com ele.

“Pensa em tudo o que crê. Porque a fé, se não se pensa no que crê, é nula.” Santo Agostinho

Antonio Carlos Barro

Vocação ministerial. Ainda existe isso?

Todos já sabemos, nessa altura do campeonato, que todo o povo de Deus é vocacionado para a missão de tornar Cristo conhecido entre as nações. Todo o povo de Deus é chamado e a cada pessoa é conferido dons espirituais para o desempenho da parte que lhe cabe na tarefa cristã.
Alguns são chamados para o pastorado, trabalho missionário ou educação cristã. Aquilo que antigamente chamava de vocação pastoral. Sobre essa vocação é que a coisa está pegando. Trabalho com educação teológica por mais de 25 anos e nunca presenciei tamanha falta de gente para o trabalho pastoral. Se no passado havia muitos jovens (homens e mulheres) almejando o pastorado, hoje é um fato raro.
Outro dia perguntei a seis colegas pastores se nos últimos dez anos havia tido algum jovem com a vocação ministerial em suas igrejas. Resposta: zero. Um colega compartilhou que uma jovem queria ser missionária. Como resultado sua mãe a deixou de castigo por duas vezes.
Faz muitos anos, mas muitos mesmo, que não ouço um pai ou uma mãe dizendo: “Ore pelo meu filho, pois ele quer ser pastor”. Acho que esse ideal não passa nem perto dos pais nos dias de hoje. Eu vejo pedindo orações para passar no vestibular para medicina, odonto, fisio, engenharia e tantas outras “nobres” profissões. Ser pastor é coisa para pobre – essa é a realidade.
Antes de terminar quero recordar (para meu consolo) que o único pedido de oração que Jesus fez a todos nós foi: “Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara”.
Você ora?

Antonio Carlos Barro

Investir em vocacionados está fora de moda

Se existe algo que tem me deixado triste, é o descaso de algumas igrejas no que se refere ao investimento em missões. Vou mais além, “em vidas”, vidas que, dedicam suas vidas às missões. É triste! Muito triste mesmo o que vem acontecendo. Parece-me que uma onda vinda de algum lugar que não do Espírito Santo têm anestesiado alguns “lideres” de instituições eclesiásticas. Andando pelos corredores do seminário é comum encontrar alunos abatidos e desmotivados. Quando lhes são pedidas as razões de suas aflições, comumente eu ouso: “É! Não está fácil! Eu trabalho o dia todo, pego ônibus, ajudo em casa, e me desdobro para servir na igreja, e mesmo assim o único apoio que recebo, são dois tapinhas nas costas aos finais dos cultos de domingo”. Às vezes observo alunos travando uma intensa luta entre a vontade de aprender e o sono advindo do exaustivo dia de trabalho. Ouvi outro dia um dos nossos colegas dizer ao término de uma das aulas enquanto corria: “deixe-me correr, meu filho de cinco anos está me esperando acordado para jantar, tadinho ele não dorme enquanto o pai não chega”. E a igreja? Bom, a igreja nada! Eu, particularmente não posso reclamar, a minha igreja tem me dado as mensalidades do seminário, e meus pais ainda têm me dito “filho, eu sei que está difícil aqui em casa, mas enquanto nós pudermos eu quero que nesse período da sua vida você só estude e se prepare”. Meus mantenedores são meus pais. Se as igrejas entendessem o seu papel eu não precisaria ver meus amigos sofrendo tanto. Ser pastor não é profissão é vocação, eu não vejo ninguém no seminário dizer “vale a pena estudar durante quatro anos, pois quando sairmos daqui teremos conforto, o mercado é promissor”. Infelizmente eu vejo que para algumas igrejas a vocação está fora de moda, pois o que está na moda é modernizar o templo, estofar suas cadeiras, investir em ar condicionado, afinal, a concorrência está batendo a porta. Investir e apoiar vocacionados para o ministério pastoral se tornou coisa do passado, coisa do tempo em que o reino de Deus ainda era mais importante. É claro que não estou generalizando, mas orem pelos nossos lideres, orem por nossas igrejas, orem para que pessoas possam ter a oportunidade de se preparar para servir. Vivemos em tempos difíceis onde lideres e igrejas despreparadas não tem sabido dar respostas aos anseios da alma. Tempos em que se dizer evangélico ou pastor tornou-se motivo de desconfiança e piadas. Tempos em que as igrejas têm se tornado lojas de conveniências e clubes sociais. E principalmente, não tem investido nos cada vez mais raros, porém, futuros líderes da igreja brasileira. Precisamos desenvolver um triângulo onde vocacionados, igrejas, e seminários estejam ligados tendo Deus no centro. A única coisa que ainda me conforta é saber que Deus nunca perdeu e nem nunca perderá o controle da história. É tempo de caminharmos juntos em prol do reino de Deus. Eu o desafio a parar por alguns instantes diante do seminarista da sua igreja (se ainda houver) e lhe perguntar: “como vão as coisas, como anda o seu coração?”.

Gui La Serra – Seminarista
guilaserra.blogspot.com/